Marcelo acelera sua Feizer360 nas ruas de São Paulo, traçando as faixas brancas do asfalto molhado na Marginal Pinheiros. O visor LED do seu capacete marca cem por hora. O mar de lata parado só o assiste voar baixo entre os retrovisores, rumo a Interlagos com um combo de sushi de quarenta peças para entregar na pressa.

A chuva? Nem abala Marcelo. Sua moto é mais rápida que as gotas do céu. Desvia de um caminhão de frete que tenta mudar de faixa perto da saída para ponte Transamérica, mandando uma buzina enquanto desliza em uma derrapagem sorrateira, subindo a ponte sem perder o ritmo. No baú de carga, um adesivo holográfico manda a real para os ultrapassados: “Não é pressa, nem loucura, é a comida perdendo temperatura.” Se entregar atrasado, não recebe nada, porque o pagamento é a gorjeta do cliente feliz. Melhor se espatifar e nem entregar do que receber uma estrelinha na avaliação.

Na área da Jurubatuba, o fluxo se alivia. Marcelo relaxa, tira a mão esquerda do guidão, olha ao redor. Ele curte esse pedaço da Marginal, as árvores zumbi misturadas com os hologramas de propagandas dão uma sensação tranquila, um contraste de natureza morta e enormes modelos peitudas e cintilantes com cervejas na mão. Mantendo o pique, chega em cinco minutos. Está suave.

Um zunido agitado entra no ouvido dele. Marcelo ergue a cabeça, vê um vulto preto rasgando o céu na Marginal, rumo ao norte. É um drone da Magalumazon, brilhando no trânsito, preso por uma corda a uma caixa preta que balança na chuva. Entrega premium. Marcelo se perde em lembranças.

Dez anos atrás, essas entregas eram feitas por motoboys, era uma grana boa, sem depender de gorjeta. Preço certo, percentual do valor do produto. Época boa, só se preocupava com ladrão de carga e entregas em área vermelha. Aí a automação pegou as melhores cargas, sobraram só as coisas sem valor, como livros e produtos de beleza, não compensando mais o risco. Marcelo voltou para comida e remédio, o volume era maior e o perigo, menor. E também porque ainda não criaram um robô que racha o asfalto a cem por hora para ganhar mixaria. Moto não tem ré porque a vida anda pra frente, Marcelo pensa.

Ele segue pela avenida Interlagos em direção ao seu destino, atravessa o rio Jurubatuba em todo seu esplendido fedor. Um carro da polícia cruza na direção oposta, escoltando um caminhão carregando motos, bicicletas e alguns pilotos de um coletivo concorrente. Marcelo sorri, buzina em comemoração e liga o gravador do capacete, pois precisa compartilhar um curta no grupo do coletivo.

Dobrando a esquina, Marcelo entra na zona residencial. Pequenos arbustos artificiais cheios de flores enfeitam as calçadas das pequenas ruazinhas. Postes de metal preto fosco, com lâmpadas clássicas penduradas em seu topo e discretas caixas contendo câmeras de alta definição intercalam a paisagem florida. Ele admira as casas brancas de dois e três andares, protegidas por muros verdes que complementam o estilo neo-boêmio da rua. Casas da hora, um monte de árvore, quintal espaçoso, janelonas, pássaros voando, drones de patrulha anotando a placa, modelo e cor de sua moto, o id do seu dispositivo, sua altura, peso e características visíveis, tudo muito aconchegante. Marcelo reflete como gostaria de morar aqui. Uma moto preta começa a segui-lo, pilotada por um segurança de bairro vestido em equipamentos táticos, um rifle calibre quarenta e cinco pendurado em seu torso e um apito no pescoço. Ele sabe que está seguro.

O capacete avisa sua chegada ao destino. Marcelo estaciona sua nave, tira o capacete e toca a campainha. Dá uma olhada no sushi, tudo firmeza, nem um arranhão no lacre. Um tiozão de uns quarenta e poucos aparece no portão, bermuda e chinelo, camiseta branca, umbigo pra fora combinando com a careca brilhante.

— Finalmente. Estou esperando já faz quase uma hora! — o homem diz.

Marcelo traz o combo e entrega para o careca.

— Segura aí, patrão! Saí do Morumbi e cheguei aqui em vinte e oito minutinhos, confere lá no app. A gente da Cachorros Loucos nunca deixa na mão!

Marcelo dá uma bisbilhotada na garagem coberta atrás do tiozão. Um Model Y cinza está ali, brilhando sob a luz. Conferindo a marca do pneu dá pra ver que é da linha 2098, uns cinco anos de uso.

— Bonito esse carro aí, chefe. Já desbloqueou a padronização de consumo? Se você for em configurações, depois segurança e selecionar modo operacional individual, o motor consome melhor. Fica a dica.

— É sério? Eu estou tendo maior dor de cabeça com a bateria! Se for só fazer isso…

— Se quiser eu faço pro senhor. Consigo também ajustar a dissipação de calor para mais eficiência e duração da bateria, e dou uma geral nos circuitos também. — Marcelo fala. Para ser um bom entregador, você tem que ter um diferencial, se não a gorjeta não vem. Ele não se graduou em engenharia eletrônica a toa, afinal de contas. Marcelo tira seu equipamento do baú e bota a mão na massa sílica.

Entrega feita, serviço prestado. As estrelinhas chegam. A taxa de entrega é direcionada para o coletivo Cachorros Loucos, para cobrir custos de operações e cobertura de zonas de entrega, já os Drex da gorjeta vão direto para a carteira no dispositivo do Marcelo, e ele segue viagem. Ele considera buscar uma entrega na área, mas ali não é uma zona verde para ele, e corre o risco de perder a moto se chegar num ponto de coleta e dar de cara com alguém da Abutres ou Marreteiros, principais concorrentes da Cachorros Loucos. Após refletir sobre o risco, decide que a recompensa não compensa, dá um tchauzinho pro segurança do bairro e volta para sua área, na Gomes Cardim.

A Gomes Cardim transformou-se no centro pulsante de entregas da Zona Leste, sob a vigilância da Cachorros Loucos. Aqui, o coletivo é realeza, garantindo exclusividade e segurança nos negócios locais, que variam de simples lanchonetes a restaurantes sofisticados. Marcelo chega à região, absorvendo a miscelânea de aromas de comida e perfumes e o colorido das lâmpadas de néon. Ele estaciona sua Feizer360 na garagem do coletivo, onde diversas motos exibem o emblema dos Cachorros Loucos.

Dentro da cantina, um aroma de café recém-passado e pão de queijo envolve o ambiente. Marcelo pega um copo de café e um pão, então avista dois camaradas sentados no velho sofá de couro, no canto de convívio da cantina. Duda e Beto, veteranos do asfalto, assim como ele, estão sentados com seus copos descartáveis fumegantes em mãos.

— E aí, lenda! — Beto exclama ao ver Marcelo, dando um aceno com a cabeça, soltando um sorriso charmoso que faz seu elegante bigode encurvar-se como uma andorinha. Duda ergue seu copo em saudação.

Marcelo se aproxima, dando um tapinha nas costas de Beto. — Fala, rapaziada! Viram os Abutres sendo carregados que mandei no grupo? O rolê não tá mole hoje!

Duda solta uma risada que se parece mais com um rosnado de porco, seus cabelos cacheados até o ombro chacoalhando. — Ah, garoto, só chora! Tive que fazer bate e volta pra Alphaville de graça! O pega foi lá em Interlagos? Algum sushi atropelado no caminho?

— Nada, foi tranquilo. Só peguei um careca que não sabia nem otimizar o consumo do Model Y dele. — Marcelo revira os olhos, bebericando seu café.

Beto dá uma risada nasalada. — Cara, teve uma velhinha que me pediu pra subir dezesseis andares porque o elevador tava quebrado. Quando cheguei lá, ela só queria companhia pra comer pizza. — Ele balança a cabeça, rindo. — Pelo menos a gorjeta foi boa.

— Só fazer companhia é? Tamo sabendo. A pizza era de bacalhau? — Marcelo pergunta com um sorriso de canto.

Duda se intromete, rosnando: — Se era, ele não vai dizer. Beto aqui não nega comida nem de vó!

Os dois compartilham uma risada, enquanto Beto abre o dispositivo na esperança de uma nova entrega surgir para escapar da zoação, mas seu lugar na fila ainda está longe.

Então a sirene rasga o ambiente da cantina, fazendo o café vibrar. Um momento de silêncio toma conta do espaço, até que a porta se abre bruscamente, revelando um grupo de soldados do coletivo, todos com os emblemas da Cachorros Loucos em metal sobre suas jaquetas pretas, cintilando sob as luzes frias da cantina.

— Alerta! — um dos soldados fala. — Os Marreteiros tão atacando a zona Raia lá na Penha. Todos os motoboys armados, AGORA!

A cantina vira um caos organizado. Marcelo não hesita, desce a escada de metal em pulos, corre até sua Feizer360 e abre o baú, de onde tira um par de pistolas e alguns explosivos de controle emocional, que guarda na jaqueta. Ao seu lado, Duda equipa-se com uma escopeta de cano curto e Beto saca um revólver calibre trinta e oito.

— Parece que a pizza da vó foi só o aperitivo do dia, hein? — Duda diz para Beto, tentando manter um semblante de tranquilidade, mas o nervosismo é palpável em sua voz. Beto tenta dar uma risada em resposta, mas mal consegue respirar.

Marcelo encaixa o capacete, sua respiração profunda e regular se fazendo ouvir no microfone interno. — Vamos nessa, galera.

Uma maré de motos flui pelas ruas na tarde escura. O ronco ensurdecedor de dezenas de canos de escapamento serrados corta em direção à MegaRaia, na Penha. Um rabo de bicicletas acompanha as motos, mantendo-se à distância. A estrada se torna um mar de faróis, enquanto os motoboys, armados e determinados, avançam em defesa de seu território, prontos para a batalha que os aguarda.

Ao som das buzinas, carros e pedestres urgentemente mudam suas rotas para ruas adjacentes, o caminho sendo liberado pela força da massa de metal e fúria que segue em direção à Penha. Helicópteros pretos com o logo da polícia seguem por cima, monitorando a situação, apenas para garantir que nenhum patrimônio assegurado seja danificado. As áreas da Zona Leste não possuem empresas pagadoras de impostos, então não são oficialmente cobertas pela segurança patrimonial do governo, mas ainda assim algumas corporações VIP possuem postos de vendas e operações espalhados pelos bairros, exigindo um serviço especial para atendê-los.

Motociclistas de concorrentes alheios, no meio de suas entregas, simplesmente abandonam suas motos, mesmo as que estão em movimento, e se escondem dentro de lojas e residências até que o rolo compressor de motos passe.

O cenário não muda muito entre os bairros. A Penha não é uma área tão lucrativa quanto a Gomes Cardim, pois seu forte são farmácias e lojas de cosméticos. Porém, por ser uma área próxima a central da Cachorro Loucos, ela é uma zona bastante influenciada pela força gravitacional do coletivo. Também é um ponto estratégico para qualquer organização que tenha planos de derrubá-los, e por isso precisa ser devidamente protegida.

Chegando na quadra da MegaRaia, eles encontram o esquadrão da Cachorros Loucos formando uma trincheira diagonal entre um ponto de ônibus e a esquina, usando pneus e outros utensílios como portas de lojas e carros estacionados como barreiras. Estrondos de granadas de pequeno porte podem ser ouvidos à distância, enquanto que ocasionalmente uma faísca de ricochete pode ser vista na superfície dos carros. Do outro lado da Raia, uma trincheira muito semelhante pode ser vista, com um mar de entregadores e motoqueiros que aparenta ser muito mais volumoso do que eles.

Beto corre até o grupo que está dando orientações para os recém-chegados, enquanto Marcelo e Duda se juntam a um grupo de entregadores agachados na esquina.

— O que que tá acontecendo?! — Marcelo grita no ouvido do garoto agachado com a cara enfiada em um binóulos, sua cabeça inclinada para fora do muro, apenas o suficiente para que possa admirar a cena do caos.

— Mano, cercaram o rolê todo, tão levando todas as encomendas! Ficaram sabendo de uma entrega pesadona hoje, abastecimento de estoque! Tão catando tudo! — O garoto responde. Marcelo nota que ele não deve ter mais que quinze anos, seu bigode mal começando a se formar sobre a pele morena. Ele sente uma fisgada de pena pelo pobre garoto, mas logo é trazido de volta à urgência da situação ao ver as faíscas brotando no poste da esquina. Ambos saltam para trás. O rosto do garoto é a caricatura do medo.

— Tem gente demais da Marreteiros aqui! — Duda diz — Isso não é só pra pegar o frete, eles tão querendo capturar a zona. Vai dar ruim.

Beto surge de onde estava, trazendo mais informações.

— Pessoal, vamos ter que esticar o turno, isso não vai se resolver rapidinho. Segundo o chefe, a Marreteiros tá querendo dominar a Penha toda! Tão armados até os dentes do outro lado! Ouvi dizer que até lança-chamas eles têm. Pelo que o chefe disse, ou eles caem ou a gente.

Marcelo avalia a situação. Ele pega os binóculos na mão do garoto, e dá uma bisbilhotada no outro lado da rua. Uma muralha de soldados estão fazendo guarda na Raia, tem gente até no teto dos pequenos prédios. A concentração maior está em volta da drogaria, com uma fila de entregadores coletando as cargas para o frete e saindo, sob cobertura das balas. O esquadrão da Cachorros que está ali do lado deles não vai fazer nem cócegas, um confronto direto é exatamente para o que os Marreteiros se prepararam, e com muitos recursos. Botar tanta gente assim no mesmo lugar custa caro. Marcelo tem uma ideia.

— Moleque, corre lá na pizzaria e pede dez calabresas, sem catupiry, e trás pra gente, rápido. Vai, vai! — Ele fala para o garoto ao seu lado, e então se vira para Duda e Beto. — Tenho uma ideia. Se continuarmos aqui, só vamos nos ferrar. A jogada é cortar a fonte de grana deles, assim não vão conseguir manter essa turma toda por muito tempo.

— E como a gente vai fazer isso? — Duda pergunta, confusa.

A noite começa a dar as caras, as luzes dos postes que ainda estão funcionando se acendem, e os mosquitos se aproximam das lâmpadas. O ar é preenchido por uma mistura de sons distantes, desde o zumbido ocasional de drones de vigilância, até as vozes nervosas dos entregadores, gritando e gemendo em resposta aos tiros e pequenas explosões.

— Os Marreteiros tão queimando Drex com esse esquema, e essa entrega da MegaRaia deve ser o que tá sustentando eles. O esquema é atrapalhar essas coletas deles. Daí eles vão ficar no aperto e vão ter que mandar a galera pra coletar em outros lugares, aliviando o trampo aqui pra gente. — Marcelo explica.

Depois de uma longa respiração, Duda e Beto continuam olhando para ele com cara de e daí?, esperando uma resposta. Então Marcelo continua:

— Primeiro pensei em dar um jeito de detonar a MegaRaia, pelo menos a parte de coleta, mas aí caiu a ficha que daria mó rolo com os cana, por causa de destruição de patrimônio e tal. Aí, enquanto tava dando uma checada se os cana ainda tavam de olho, vi uma parada. As Estações Rádio Base são gNodeB. — Ele arca as sobrancelhas para enfatizar a grande descoberta. Ninguém demonstra qualquer reconhecimento. — A Penha ainda funciona com rede 5G, e a central da Vivotim fica aqui no bairro! — Ele explica. — Então, saca só: a gente podia invadir essa central e mandar um firmware zoado pras antenas. Pra arrumar, só na unha, e eles só vão poder fazer isso quando as ruas estiverem de boa. — Ele termina de explicar seu plano e espera alguma reação de seus colegas, o que não acontece. — E o mais chavoso: essas antenas aí não são protegidas, tá ligado? — Marcelo acrescenta. Ele sabe disso porque vira e mexe precisa roubar uma antena dessas para melhorar o sinal no bairro onde mora, elas vivem quebrando.

Duda e Beto se olham num desafio de quem irá falar primeiro, então Duda toma a frente com um voto de confiança:

— Não entendi nada, mas se isso vai me tirar daqui sem perder o registro do coletivo, eu topo. No que você está pensando? — ela pergunta.

— Em pizzas de tróia. — Ele responde.

***

Ao contrário dos escritórios e prédios de mega corporações, as Centrais de Comutação e Controle, um nome puramente histórico, são prédios quase completamente autônomos. A gestão de equipamentos, distribuição de dados, monitoramento de falhas, tudo é feito por modelos de inteligência artificial parametrizados e ensinados na base de dados de milhões de linhas de códigos e logs de uso dos computadores dos engenheiros que costumavam fazer isso, antes de serem substituídos pela sua criação. Não costumam possuir muita segurança também, pois os reparos são rápidos e baratos, protegidos por camadas e camadas de redundância e pela falta de interesse dos agentes maléficos. Ninguém queria desligar a internet, afinal de contas, ainda mais na Zona Leste.

O prédio da central Vivotim, um grande cubo de vinte andares, possui uma fachada pixelada de azulejos cinzas e brancos. As pequenas janelas, distribuídas em grupos de quatro e fechadas por persianas, não se abrem. Sua entrada, rodeada por ripas de metal e pintada de azul, contrasta fortemente com o resto do edifício. Palmeiras artificiais tentam suavizar a área entre a cerca e a fachada, na tentativa de adicionar um toque acolhedor ao local.

Eles passam pelo portão aberto da cerca e apertam o botão do intercom.

— Entrega. Dez pizzas de calabresa para Operações de Redes. Não sei. Sim. — Ele olha para as caixas de pizzas em sua mão. — Pizzaria Pacheco. Aham. Olha só, essas pizzas tão esfriando, não faz a gente perder nossa gorjeta, chefe. Aham. Tá bom.

Eles esperam em silêncio por alguns segundos em frente a porta de vidro preto fosco, até que ouvem um bipe, e a trava é liberada em seguida.

Ao pisarem na pequena recepção do prédio, se deparam com dois homens, um segurança vestindo um uniforme e um rosto amarrotados, atrás do pequeno balcão cinza com uma chapa de madeira em cima, enquanto o outro homem, um jovem de rosto redondo no final dos seus vinte anos, está do lado de fora do balcão, de frente a uma porta de vidro.

Franzindo a testa, o jovem comenta: — A gente não pediu esse monte de pizza. Pelo visto o chefe vai mandar hora extra pra nós. Droga. — O jovem comenta.

— Sinto muito, chefia. — Marcelo diz, levantando os ombros com um sorriso de empatia no rosto.

— Pode me ajudar a levar? — Ele pergunta, retirando uma das caixas da pilha que Marcelo carrega.

— Com certeza! — Marcelo responde.

Eles caminham a passos acelerados pelo corredor frio de paredes brancas. A forte iluminação, somada ao cheiro de ar reciclado, faz Marcelo lembrar de quando quebrou a perna em uma queda, tendo que ficar horas numa maca, no corredor do hospital, esperando para ser atendido, como um fantasma indesejado.

Esperando pelo elevador, o ruído distante da construção carrega o ar com tensão. Marcelo percebe um detalhe deslocado na jaqueta de Beto, traída pelo peso das pizzas. Seus olhos se arregalam levemente, e com um gesto discreto, mas urgente, sinaliza para Beto. O cabo da sua trinta e oito estava à mostra, ameaçando revelar seus segredos.

Com um suave “ding”, as portas se abrem e eles entram. Ao reabrirem, uma sensação de déjà vu toma conta do grupo. Por um instante, eles apertam os olhos, tentando distinguir os detalhes que os ajudariam a entender se estavam ou não no mesmo andar. O jovem sai primeiro, completamente alheio à estranheza do momento, e Marcelo e os outros o seguem.

— É aqui, podem deixar na mesa, por favor. — O jovem diz, abrindo a porta de metal fosco com o passar de dedo no leitor de digital da maçaneta.

A sala é dominada por monitores gigantes que mostram gráficos e vídeos em tempo real, tudo iluminado por um brilho azul-tecnológico. Marcelo admira a dança dos leds nos equipamentos ao fundo, guardados em torres pretas de aço, suas portas transparentes distorcendo as cores em pequenos raios de luzes que se espalham pela sala. Que sonho, Marcelo pensa. Isso aqui era o que ele queria chamar de casa. Bater ponto todo dia, ter um salário fixo, garantido, brinquedos eletrônicos para brincar, comida de graça, escola paga para a filha, ambiente climatizado, nenhum perigo de vida, com exceção do momento presente. Mas as vagas eram poucas. Somente quatro ou cinco engenheiros são contratados por central, o necessário para manter os modelos de inteligência artificial na linha, garantindo que os comandos e as decisões tomadas condizem com a realidade, e corrigindo as alucinações do modelo, quando possível. Na verdade só um era realmente necessário, mas as corporações perceberam após alguns eventos trágicos que era bom ter algum reforço, tanto pela companhia quanto para administrar os surtos psicóticos que insistiam em acontecer com os engenheiros que ficavam oitenta e quatro horas por semana conversando apenas com switches e modelos de linguagem. Ainda não haviam encontrado uma solução para esse bug.

Ele nunca teve a menor chance de estar ali, na verdade. Não tinha o tom de pele certo para começar, mas antes até mesmo disso, não tinha nascido nas coordenadas certas para criar e cultivar as conexões necessárias para sequer entrar na fila de entrevista. Poucas vagas, nenhuma chance. Mas ele não reclama, porque tem seus momentos. Ele está ali agora, e vai poder viver aquilo tudo por quinze minutos. Como seu avô já dizia, quando a vida te dá limões, entregue-os.

— Então, é o seguinte — Marcelo começa, retirando suas pistolas da jaqueta e apontando para dois dos engenheiros sentados de frente as grandes telas. — Vocês vão ficar quietinhos aqui no canto porque agora quem vai comandar o rolê sou eu. — Um sorriso se estampa em seu rosto. Duda e Beto também se armam, cada um escolhendo um engenheiro para si.

Tela Azul. Os engenheiros simplesmente congelam em seus lugares, bocas abertas, sobrancelhas arqueadas, pura confusão. O rapaz que os guiava, carregando uma única caixa de pizza em suas mãos, deixa a caixa cair, o som da massa molhada atingindo o chão pontua a cena.

— TODO MUNDO PRO CANTO AGORA! — Beto e Duda gritam ao mesmo tempo. Duda se aproxima de um dos engenheiros sentados e atinge-o nas costas com o punhal de sua escopeta serrada.

O grito de dor faz todos os quatro engenheiros se embaralharem para fora de suas cadeiras, correndo em direção às torres de switches.

— O que vocês querem? A gente não tem nada de valor! — o engenheiro que os guiou até ali diz com uma voz falha. Marcelo o empurra junto aos outros, e vai em direção ao terminal aberto, colocando suas pistolas ao lado do teclado háptico desenhado sobre a mesa.

— Fica tranquilo, colega. Só vamos fazer uma brincadeira, se vocês se comportarem, ninguém vai se machucar. — Ele navega pelo terminal com facilidade, iniciando seu trabalho.

O cheiro salgado do suor gelado, reciclado pelo ar condicionado, começa a se espalhar pela sala. Duda está de prontidão na porta, vigiando o corredor, enquanto Beto vigia os engenheiros entulhados em frente a uma das torres de equipamentos. Os engenheiros cochicham perguntas entre si sobre o que está acontecendo e o que deveriam fazer.

Marcelo navega com tranquilidade no mar de dados. Os engenheiros olham para ele com ar de curiosidade, não entendendo como um motoboy consegue fazer tanto estrago no sistema de forma tão deliberada, eles estão impressionados.

— Pronto, em alguns minutos a Penha vai ficar sem sinal. Vamos dar o fora. — Marcelo diz, levantando-se da mesa e pegando suas pistolas. — Mas antes precisamos garantir que não vão cancelar a distribuição. — Ele acrescenta, e então mira em cada um dos terminais individuais e atira. O barulho faz os engenheiros se encolherem em susto, um deles chega a entrar no vácuo entre as torres de equipamentos, tentando se esconder das balas.

O trio corre para o elevador soltando pulinhos e gritando em comemoração. A porta do elevador se abre e eles entram agilmente, apertando o botão para o térreo.

— Que molezinha hein — diz Beto, extático de alegria, encostado na parede lateral — Muito melhor que ficar desviando de bala lá naquele buraco.

— Não sabia que você era hacker, Marcelo! Tô precisando invadir o conectaMi da minha ex, você consegue pra mim? — Duda pergunta com um sorriso sarcástico no rosto, Marcelo apenas ri e balança a cabeça.

O som do tiro estoura assim que o elevador abre a porta, revelando um pequeno drone preto, voando no final do corredor. Seu formato é elegante e aerodinâmico, como uma pequena águia em posição de mergulho. Uma logomarca soletrando Taurus pode ser lida na carenagem fosca. Em seu bico, um cano de nove milímetros está soltando uma fumaça clara que distorce a luz do led vermelho que pisca no topo do aparelho.

— Aah! — Duda grita, sentindo a fisgada da bala em sua barriga. Beto puxa Duda pelo braço ao ouvir o som do tiro, colocando-a ao seu lado na parede do elevador. Marcelo se joga para a parede oposta, e arrisca uma bisbilhotada, vislumbrando o brilho do cano quando o robô atira novamente.

— Caceta! Como vamos sair daqui?! — Beto grita, desesperado. Ele toma a escopeta ensanguentada das mãos trêmulas de Duda, que mal conseguia segurar a arma devido à intensidade da dor que a dominava. Com determinação, Beto aponta a escopeta para o final do corredor e dispara, sem ao menos se dar ao trabalho de mirar. O som estridente de vidro se quebrando ressoa, indicando que a porta no final do corredor foi destruída. No entanto, o zumbido constante das hélices do drone ainda era audível.

O drone, como se estivesse se vingando, atira de volta, atingindo diretamente a escopeta que Beto segurava. O impacto faz a arma ser arremessada violentamente para o fundo do elevador. Beto, com olhos arregalados de puro susto, se volta para Marcelo, que está tão chocado quanto ele.

— E agora?! — Beto questiona, a voz trêmula, buscando em Marcelo alguma ideia ou solução para a situação em que se encontravam.

Duda aperta o abdômen com as mãos, cada respiração completada por um gemido, e seu rosto ficando cada vez mais branco. A sensação de frio e formigamento se alastra pelo seu corpo, enquanto ela tenta manter sua consciência e foco.

Marcelo retira da sua jaqueta três bolas pretas, são as granadas de controle emocional. Marcelo olha para Beto e Duda, que entendem o recado. Beto aperta o botão para fechar as portas do elevador ao mesmo tempo em que Marcelo ativa o timer das granadas e as joga no corredor. Um som abafado de explosão pode ser ouvido através da porta fechada. Do outro lado da porta, no corredor, o Drone é agraciado com jatos de luz branca, e uma onda sônica atravessa o corredor até a sala da recepção, fazendo o drone rodopiar com o impacto, atingindo o teto, quebrando as lâmpadas. Os estilhaços de vidro de uma das lâmpadas entram no compartimento da hélice do drone, fazendo com que travem. Quando a porta do elevador se abre novamente, a águia robótica está caída no chão, seu bico virado para a parede.

Eles aceleram pelo corredor, sem perder tempo, cada um carregando um braço da Duda sobre seus ombros, fazendo-a flutuar entre eles. Chegando na recepção, encontram o segurança agachado atrás do balcão, uma pistola em sua mão e o controle de navegação manual do drone jogado no chão, ao seus pés. Marcelo pára e olha atentamente para o velho. Seu rosto, esculpido por décadas de experiências e trabalhos duros, está subitamente tenso. A pele solta abaixo do seu queixo tremia ligeiramente, quase imperceptível, uma vibração momentânea de indecisão. E, por um instante fugaz, seus olhos cansados se tornaram fendas estreitas, pesando a delgada linha entre enfrentar a ameaça à sua frente ou implorar pela sua vida. Um acordo silencioso é formado naquele instante.

O velho lhe entrega seu revólver sem pestanejar, e os três saem do prédio sem nenhuma outra resistência, seguindo de volta para a central da Cachorros Loucos. Duda é colocada na garupa de Beto, e sua moto é deixada para trás.

As motos entram com estrondo na garagem da Cachorros Loucos. Pneus chiando, Marcelo e Beto executam uma frenagem em derrapagem que ecoa como um trovão pelo espaço confinado, e o aroma de borracha queimada enche o ar.

Eles descem de suas motos e carregam sua amiga até a enfermaria. Com um olhar que mistura determinação e medo, Marcelo sente o calor pulsante da barriga de Duda, encharcada de sangue. O líquido vital escapa entre seus dedos, e ele percebe que o tempo está contra eles. Sabendo disso, Marcelo não desperdiça tempo com maçanetas, e chuta a porta de PVC da enfermaria com toda sua força, explodindo suas dobradiças com um estrondo.

— Precisamos de ajuda, AGORA! Ela levou um tiro na barriga! — Marcelo grita.

A médica, com olhos arregalados pelo choque do estrondo, avalia rapidamente as camas já ocupadas por entregadores que pagaram seu preço na batalha. Ela se desloca como uma flecha até o fundo da sala, agarra uma maca com rodinhas e a guia de volta até Duda.

Eles acomodam Duda sobre a maca com cuidado, e a médica examina-a, retirando uma tesoura do bolso e cortando a camisa, antes amarela, agora marrom de tanto sangue. Ela confere o buraco da bala entre a cintura e o umbigo.

— Não parece ter acertado o rim ou bexiga, pelo ângulo deve estar no intestino — Ela informa, e então puxa um objeto de seu bolso que de relance parece uma caneta piloto, mas na sua ponta existe uma garra de metal, como aquelas nas máquinas de sequestrar bichos de pelúcia. Ela pressiona um botão no topo da caneta, e uma luz vermelha é acionada, penetrando a ferida na barriga de Duda. Ela aproxima a caneta, e as garras começam a se mover, revelando sua estrutura flexível. Elas entram na ferida de Duda, que estava inconsciente até esse momento, mas agora acorda num grande grito de dor excruciante. Uma luz verde pisca no topo da caneta.

— Alcançou a bala. Removendo. Acionando micro-cauterização. — A médica narra. Os gritos de Duda contrastam.

Finalmente a bala é removida, sendo segurada pela garra triunfantemente acima da ferida. A médica deixa a caneta de lado e apanha um novo aparelho do bolso, que se parece com uma pequena pistola amarela, com um cabo emborrachado preto. Ela aponta a pequena arma para a ferida, e Marcelo arregala os olhos, desviando o olhar ao ouvir o barulho do grampeador sendo projetado até a barriga de Duda.

— Pronto, encontrem uma cama livre para ela. Dê isso para aliviar a dor. — A médica diz sem cerimônias, jogando a bala e uma cartela de analgésico na mão de Beto e voltando-se para examinar outro ferido nas proximidades.

Após algumas horas, a febre de Duda parece diminuir, e sua consciência começa a retornar.

— Alguém anotou a placa? — Ela brinca, com sua voz falhando, o que transforma a piada num leve sussurro.

Beto se prontifica a fazer companhia para a amiga, enquanto Marcelo vai a procura de informações sobre a batalha.

Com a queda do sinal de internet na zona da MegaRaia, os entregadores foram redirecionados para outras áreas, levando consigo escoltas e recursos logísticos, diminuindo o contingente no campo de batalha, o que enfraqueceu o cerco na MegaRaia e possibilitou que a Cachorros Loucos botasse-os para correr. A batalha ainda não havia terminado, mas quase todo o território já havia sido recuperado. Tudo indicava que a Cachorro Loucos sairia vitoriosa, mas sem poder coletar entregas no bairro ainda, pois a rede de internet só será reparada amanhã, em horário comercial.

Marcelo traz as notícias para os amigos, e eles celebram silenciosamente sua participação na batalha, satisfeitos em terem salvo o território de seu coletivo e garantindo as vagas na fila de entrega. Marcelo se senta ao lado de Beto, que está assistindo Duda dormir. Mais um dia vencido, ele pensa enquanto solta um grande suspiro. Seu cansaço dá as caras, o choque pós adrenalina começando a bater em seus músculos como uma vara de bambu. Ele olha para o relógio e percebe que já está tarde.

— O rolê hoje foi louco, mano. Preciso voltar pra casa, se não vou levar uma coça da Rita. — Ele fala, se despedindo de Beto com um tapinha nas costas e se levantando, dando uma última olhada no sono de Duda para garantir que está bem.

A Garagem da Cachorros Loucos agora não tem nem metade do contingente do turno diurno. Marcelo observa o vai e vem dos entregadores em seus corres individuais, os mosquitos dançando abaixo das grandes lâmpadas em suspensão no meio do galpão, e a ambulância do coletivo entrando para mais uma entrega à enfermaria. Ele suspira e tira a jaqueta suja de sangue, guardando-a, junto com seus equipamentos, no baú da moto. Ele monta em sua nave. Está na hora de voar para sua rota final de todos os dias. Casa.

Um véu gelado envolve o mundo às duas da manhã, transformando janelas em espelhos embaçados e pintando os carros com gotas. As casas da rua contam histórias de resiliência desbotada, marcadas pelas lutas diárias contra o tempo, suas cicatrizes expostas nas fachadas de puro tijolo, algumas rebocadas, poucas pintadas em tinta de variadas cores. Marcelo entra com sua moto pelo corredor de parede chapiscada, repousando-a em frente a porta de casa. Ele nota a luz quente saindo das frestas da janela fechada. Sua filha Rita ainda está acordada, o esperando. Ela abre a porta.

— Até que enfim! Estava preocupada! Por que demorou tanto pra chegar? — Ela fala.

— Boa noite pra você também. — Marcelo responde de maneira descontraída. Ele mira nela com um olhar cansado. Os cabelos dela, pretos e cacheados, reluzem sob o tom amarelado das luzes da sala de estar, espalhando uma sensação quente e familiar. Os olhos dela, profundos e escuros, são espelhos da alma de sua falecida esposa. Neles, Marcelo enxerga a mesma letargia e graciosidade, uma mistura que se molda em uma expressão de serenidade, inconfundivelmente herdada de sua mãe. Um sorriso feliz e suave se desenha nos lábios de Marcelo ao reconhecer sua casa.

— Vou esquentar uma janta – Rita diz, acompanhando-o para dentro da pequena sala de estar — Quero saber o que aconteceu! Me contaram que teve um confronto na Penha! Você tava lá?

Marcelo a ignora, pega uma muda de roupa e vai direto para o banheiro. A água quente relaxa seus músculos, subtraindo todo o peso que ele mal havia notado que estava lá. Mais um dia vencido, ele pensa.

Na mesinha de jantar, Marcelo mastiga seu arroz com feijão ferozmente.

— Me disseram que eles estavam lá com lança chamas, viu alguém se queimar? — Rita indaga, curiosa.

— Nem sei, filha. Fiquei longe de lá, aproveitei pra fazer umas entregas extras. — Marcelo fala entre

— O negócio foi feio, parece que só terminou agora pouco. Você não viu nada mesmo?

— Aproveitei a tarifa dinâmica pra fazer umas horas extras — Marcelo esconde.

Com um bocejo, ele leva seu prato até a pia, lavando-o, e então se despede da filha com um beijo em seus cabelos. — Vai dormir, você tem escola cedo.

Em seu quarto, Marcelo derrama na cama. O colchão velho mal responde ao impacto. Em instantes, seu ronco ressoa pelo ambiente, apontando o sono profundo. Ao amanhecer ele estará acordado, correndo atrás de entregas para compensar a falta de lucro do dia vencido.